Histórias e guias · Natureza

Guia das tartarugas: o Tamar e a temporada de desova

Quais espécies desovam na Praia do Forte, quando os filhotes nascem, como o Tamar trabalha e o que cada visitante pode fazer pelos ninhos.

Numa noite de novembro, numa praia escura do litoral norte, uma tartaruga-cabeçuda sai do mar, arrasta o corpo pesado pela areia, cava um buraco com as nadadeiras de trás e deixa ali uma centena de ovos. Volta para o mar sem olhar para trás. Uns dois meses depois, os filhotes rompem a casca, sobem juntos até a superfície e correm para a água, guiados pelo brilho do horizonte. Essa cena se repete milhares de vezes por temporada nas praias em volta da Praia do Forte, e é por causa dela que a vila tem o Tamar.

As espécies daqui

O Brasil recebe cinco espécies de tartarugas marinhas, todas ameaçadas. O litoral norte da Bahia é a principal área de desova de duas delas:

  • Tartaruga-cabeçuda (Caretta caretta): a mais comum nas praias da região, de cabeça grande e casco marrom-avermelhado. Classificada como vulnerável.
  • Tartaruga-de-pente (Eretmochelys imbricata): de casco com placas sobrepostas e bico fino, criticamente em perigo segundo a IUCN. O litoral norte da Bahia e Sergipe é o principal ponto de desova dela no país.

Também aparecem a tartaruga-oliva, mais concentrada ao norte do estado e em Sergipe, e, em menor número, a tartaruga-verde, que desova principalmente nas ilhas oceânicas. A quinta espécie, a de-couro, é rara por aqui.

O calendário da temporada

A desova no litoral vai de setembro a março. Cada fêmea volta à praia várias vezes na mesma temporada, de duas a nove desovas, dependendo da espécie. Os ovos ficam de 45 a 60 dias incubando na areia, e os nascimentos seguem até o fim de abril. Historicamente, a cabeçuda tem o pico de desova entre outubro e dezembro, e a de-pente um pouco depois, entre dezembro e fevereiro.

Como o Tamar trabalha

O Projeto Tamar começou em 1980. A base da Praia do Forte foi uma das três primeiras, em 1982, e se tornou a sede nacional do projeto. Hoje o Tamar é a soma da Fundação Projeto Tamar com o Centro Tamar do ICMBio.

Na temporada, equipes percorrem as praias todos os dias, encontram e marcam os ninhos. Segundo o Tamar, quase todos ficam onde a fêmea deixou: só os que estão em áreas de risco, como trechos de maré muito alta ou de muito movimento, vão para outro ponto da praia ou para o cercado de incubação. Em 2016, o projeto monitorava cerca de 215 km de praias no litoral norte baiano, de Salvador à divisa com Sergipe, com quatro bases, e a região da Praia do Forte respondia por cerca de 30% das desovas acompanhadas no país.

A conta de longo prazo explica a paciência: de cada mil filhotes que chegam ao mar, só um ou dois devem chegar à vida adulta.

O que você pode fazer

O próprio Tamar aponta os maiores riscos na areia: luz, veículos, mobília de praia, lixo e animais domésticos. Cada um deles tem uma resposta simples.

  • À noite, apague a luz. Lanterna, flash, farol de carro e fogueira atraem os filhotes para o lado errado e afastam as fêmeas.
  • Nada de carro, moto ou quadriciclo na areia. O peso compacta a areia sobre os ninhos e os sulcos viram armadilha para os filhotes.
  • Cadeira e guarda-sol saem da praia no fim do dia e nunca ficam sobre um ninho marcado.
  • Lixo volta com você. Plástico no mar é confundido com comida.
  • Cachorro na coleira, longe dos ninhos.
  • Viu uma tartaruga desovando? Fique longe, em silêncio e no escuro. Não toque, não fotografe com flash e avise o Tamar.

O Jubi ajuda a encaixar o Tamar no dia certo da sua viagem, e quem faz o compromisso Pegada Leve no Clube do Forte ganha conchas de boas-vindas.

Lugares desta história

  • Projeto Tamar: A sede nacional do Projeto Tamar, onde se conhece de perto as tartarugas marinhas.
  • Turismo de pegada leve: Como curtir a vila sem machucar o que faz dela um lugar especial.
  • Praia do Lord: O grande piscinão natural depois do Tamar, querido pelas famílias.

Fontes consultadas

Horários, preços e regras mudam: confirme com o local antes de ir.