Histórias e guias · História
Da Casa da Torre à vila de pescadores: a história da Praia do Forte
Uma fortaleza de 1551, um latifúndio que foi da Bahia ao Maranhão, uma vila de pescadores sem luz elétrica e a virada do turismo e da conservação.
Antes das pousadas, da rua de pedestres e das piscinas lotadas no verão, a Praia do Forte foi duas coisas: uma fortaleza no alto de uma colina e uma vila de pescadores na beira de uma enseada. Entender as duas ajuda a ver a vila de outro jeito.
Garcia d'Ávila chega com o governador
Em 1549, Tomé de Sousa desembarcou na Baía de Todos os Santos para fundar Salvador e instalar o governo-geral do Brasil. Com ele veio Garcia d'Ávila, e é com ele e os colonos que o acompanharam que começa o povoamento das terras ao norte da nova cidade, segundo o histórico do IBGE sobre Mata de São João. Em 1551, no alto da colina de Tatuapara, de frente para o mar, ele começou a erguer a casa fortificada que ficaria conhecida como Casa da Torre. A obra seguiu por décadas, até 1624, segundo a Fundação Garcia d'Ávila.
Uma fortaleza e um império de gado
A Casa da Torre nasceu para vigiar a costa e defender o território contra franceses e holandeses que rondavam o litoral. Com o tempo, virou sede de um dos maiores latifúndios da história do Brasil: a família Garcia d'Ávila espalhou currais de gado pelo sertão, seguindo os rios, em terras que avançavam da Bahia em direção ao Piauí e ao Maranhão. Foram dez gerações da família vivendo ali ao longo de três séculos.
Essa riqueza tem outro lado, que uma boa visita não esconde. O latifúndio foi construído com a expulsão e a guerra contra povos indígenas do sertão e com o trabalho de pessoas escravizadas. A Casa da Torre é patrimônio também por isso: é um documento em pedra de como se fez o Brasil colonial.
Ruína, tombamento e restauração
Com o declínio da família, a casa foi abandonada e virou ruína. No fim da década de 1930, o conjunto da Casa da Torre e da Capela de Nossa Senhora da Conceição foi tombado pelo patrimônio federal, hoje Iphan. A Fundação Garcia d'Ávila, que cuida do lugar, descreve o castelo como a única construção das Américas com características medievais.
Depois de décadas com pouco investimento, o Castelo passou por restauração e reabriu em 2021 com museu, peças arqueológicas e, nos fins de semana, projeção de luz e som nas paredes. Do alto da colina, a vista do coqueiral até o mar continua sendo a mesma que os vigias de quatro séculos atrás tinham.
A vila dos pescadores
Enquanto a Casa da Torre virava ruína, lá embaixo, na enseada protegida pelos recifes, crescia uma vila de pescadores. A capela branca de São Francisco, de frente para o mar, se tornou o centro dela. A vida seguia o ritmo da maré e da pesca, longe de tudo: quando o Tamar chegou, no começo dos anos 1980, a vila tinha cerca de 500 moradores, não tinha luz elétrica e o acesso dependia de travessia de balsa.
Os anos 1970 e 1980: a virada
Em 1970, o empresário Klaus Peters comprou a Fazenda Praia do Forte, que incluía a vila e as ruínas do castelo. Dele nasceu a Fundação Garcia d'Ávila e um plano de ocupação que tentava conciliar turismo e preservação. Em 1980 começou o Projeto Tamar, e em 1982 a Praia do Forte ganhou uma das três primeiras bases do projeto, que depois virou a sede nacional. Os pescadores, que conheciam como ninguém os hábitos das tartarugas, ajudaram a ensinar o caminho aos biólogos.
A Estrada do Coco, aberta nos anos 1970, já ligava a região a Salvador. Nos anos 1980 chegou o primeiro resort de luxo do litoral norte, e em 1993 a Linha Verde abriu o caminho para o norte a partir da própria Praia do Forte. A vila de pescadores virou destino.
A vila de hoje
A antiga rua dos pescadores virou a rua de pedestres cheia de lojas e restaurantes. A Praia do Porto ainda recebe os barcos, a igrejinha ainda celebra missas e casamentos, e a Praia do Forte segue pertencendo a Mata de São João, município de cerca de 42 mil habitantes que fez 180 anos em 2026. O desafio de agora é o mesmo dos anos 1970: crescer sem perder o que faz o lugar valer a viagem.
O Jubi conta mais sobre a história da vila e encaixa o Castelo no seu roteiro, de preferência num dia em que a maré baixa caia de manhã.
Lugares desta história
- Castelo Garcia D'Ávila: A Casa da Torre, residência fortificada do século XVI no alto da colina.
- Capela de São Francisco: A capela branca de frente para o mar, cartão-postal da vila.
- Vila e Alameda do Sol: A rua de pedestres da vila, com lojas, ateliês, sorveterias e restaurantes.
Fontes consultadas
- Fundação Garcia D'Ávila: o Castelo
- Fundação Garcia D'Ávila: sobre a fundação
- IBGE: histórico de Mata de São João
- Bahia Notícias: o renascimento do Castelo Garcia d'Ávila (2022)
- Projeto Tamar: release "Projeto Tamar, uma ideia que deu certo"
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